O projeto
Acervo digital da história e cultura suaíli do norte de Moçambique: experiências de inclusão social por meio do ensino de história e da cultura e das mídias digitais (Brasil-Moçambique)
O objetivo principal deste projeto é desenvolver uma pesquisa sobre a história e a cultura suaíli do norte de Moçambique. Também se propõe a refletir sobre como a pesquisa e o ensino de história e das culturas africanas, e do patrimônio cultural de populações historicamente marginalizadas podem se configurar estratégias de promoção da inclusão social no Brasil e em Moçambique. Nese sentido, o projeto pretende contribuir para a constituição de universidades e pesquisas acadêmicas mais inclusivas, que proporcionem a participação de professores e pesquisadores na formação de grupos interessados na promoção da inclusão social no Brasil e em Moçambique. Dessa maneira, a pesquisa está voltada para a educação intercultural, notadamente para a formação de professores e o ensino de história da África nas universidades e nas escolas, visando a implementação das leis n° 10.639/2003 e 11.645/2008 no Brasil.
As sociedades estudadas nesta pesquisa estão localizadas no território que hoje compõe parte das províncias de Nampula e de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. As populações que habitavam a parte litorânea dessa região eram denominadas suaílis. Suaíli é uma palavra Bantu, com origem na palavra árabe sahil, que significa margem, costa ou ainda porto de comércio. Como termo étnico “suaíli” foi utilizado pela primeira vez pelos omanitas, quando se estabeleceram no Sultanato de Zanzibar, no início do século XIX. Eles empregavam esse etnônimo para designar geograficamente a costa da África oriental, a população que ali vivia e também a sua língua. Nessa época, o termo suaíli assumiu uma conotação pejorativa. O significado da palavra suaíli como “margem” foi relacionado à condição social e política dessas populações, afirmando-se que elas também estariam à margem dos povos árabes e da cultura islâmica. O Islã professado pelos suaílis, de vertente Sunni-Shafi’i (diferente da maioria dos omanitas que eram ibaditas) era marcado pelas crenças locais africanas e, por isso, considerado heterodoxo e “contaminado”.
O norte de Moçambique tornou-se historicamente uma das regiões mais importantes da África Oriental. Até o final do século XIX era um dos principais pontos de encontro das caravanas comerciais que vinham do interior do continente africano e de mercadores originários de toda a costa suaíli e de regiões mais distantes do Golfo Pérsico e da China. Como parte integrante de redes internacionais de comércio e de intercâmbios religiosos islâmicos, que englobavam o espaço do Oceano Índico, o norte de Moçambique foi marcado pela intensa circulação de pessoas, produtos, ideias e saberes, tornando-se um verdadeiro mosaico sociocultural.
As sociedades suaílis do litoral norte de Moçambique mantiveram conexões políticas, econômicas e culturais com as sociedades do interior, sobretudo as denominadas macuas, resultando na inexistência de fronteiras rígidas entre si. Essas conexões históricas são perceptíveis hoje em algumas formas de organização social e em manifestações culturais. A cidade de Pangane, na província de Cabo Delgado, e as ilhas de Angoche e de Moçambique, em Nampula, fizeram parte no passado desses grandes centros políticos, culturais e econômicos suaílis. Com o desenrolar de uma história marcada pelo intenso comércio de escravos e, posteriormente, pela implementação do sistema colonial português e pelo processo de independência, os suaílis de Moçambique enfrentaram diferentes processos de marginalização e de exclusão social.
Destaque-se que o presente projeto tem, igualmente, por objetivo compreender as transformações ocasionadas por diferentes processos históricos que geraram a marginalização de diferentes grupos. Nesse sentido, para entender a situação atual dos suailis no norte de Moçambique, pode ser interessante levar em conta as experiências e as reflexões já realizadas no Brasil no que se refere aos processos de exclusão e inclusão de certos grupos sociais, como a dos afrodescendentes. Pensar a importância do ensino, do acesso ampliado às informações através das mídias digitais, da produção do conhecimento e da valorização da história e da cultura como estratégias à plena integração social e ao exercício da cidadania são objetivos maiores desse projeto.
